Hiperativa ou não: eis a questão



A história vem de longa data: aos 2 anos fui diagnosticada por um dentre muitos médicos que diziam o contrário, como hiperativa. Minha mãe achou estranho que um único médico tivesse essa opinião e se recusou da me medicar com Gardenal. Ok.

O tempo foi passando e muitas das avaliações escolares vinham com "evitar conversas e prestar atenção na aula"; isso gerava alguns puxões de orelha verbais, umas conversas, até risadas porque não tinha jeito: ou eu estava cuidando o que acontecia nas copas das árvores, no pátio, nos corredores da escola, ou estava tagarelando, porque fazia cópias da lousa rapidamente e me livrava da lição. Aí eu perturbava os outros alunos, que estavam se dedicando à lição.

Pois bem, eu cresci viajando na maionese ou fazendo milhares de coisas ao mesmo tempo, concentradíssima em alguns momentos, dispersiva noutros. Na faculdade isso atrapalhou bastante, mas consegui me formar e fazer mestrado vencendo os obstáculos.

Só que ao me tornar mãe, parece que a história queria se repetir. Desde bebê a Lalá dorme rodopiando pela cama, parecendo um ponteiro de relógio. Chutava, enroscava as pernas em tudo, desde o protetor até as barras do berço.


Na medida em que foi crescendo, embora fosse uma criança tranqüila, se mostrou também impaciente, explosiva, irritadiça. Ao mesmo tempo que chegava a ser boba, porque os amigos tomavam os brinquedos das mãos dela, era muito emburradinha - aliás, ela continua.


Não suporta perder e ser criticada, é perfeccionista e parece bastante insatisfeita, chegando a ser ranzinza. Por vezes parece que deram corda, fica elétrica e começa a falar tão alto e sem pontos nem vírgulas, deixando a gente zonza. - E os apelidos foram surgindo e ficando: pimentinha, pequena notável, papa léguas, Lalá Bagunça...


Numa consulta com a primeira pediatra, em SP, falamos a respeito de ir a uma neuropediatra. E a neuro achou legal fazer um eletro enquanto ela dormia. Deu tudo bem. Aí veio a conversa de que só com idade escolar seria possível confirmar o diagnóstico e esquecemos o assunto.


Quando o Mano nasceu, a eletricidade, as birras, a teimosia, a vontade de aparecer e até a pressa ao fazer cocô (e não se limpar) apareceram. Ou aumentaram, para dizer a verdade. Mas passado um ano, numa consulta com o pediatra aqui de POA, ele achou que ela estava acelerada demais e pediu uma consulta com neuropediatra. Na mesma semana a professora relatou que ela estava tão excitada que nem esperava pelas respostas às questões que fazia em aula. E lá fomos nós. Tudo de novo...


Então polissonografia (deu normal e ela dormiu melhor do que em casa...), conversas sobre comportamento e chegamos à conclusão de que ela não tem síndrome das pernas inquietas, mas teria de tomar ritalina, pra conseguir se concentrar e diminuir a ansiedade. Nas consultas, ela estava tão falante e agitada que nem camisa de força seguraria.


Aí começamos o tratamento, mas num primeiro retorno falei à médica que não tinha notado muita diferença na Larissa, apenas que o apetite estava diminuindo e a irritabilidade aumentando, coisas citadas na bula como efeitos colaterais. Ela pediu pra manter.


Me deu uma luz: e se ela fosse acompanhada também por uma psicóloga? - O plano de saúde tem rede credenciada, que tal se ajudasse a pelo menos se organizar já que tudo da minha filha é tão de cabeça pra baixo, misturado e confuso que nem ela se entende na maioria das vezes?


No meio disso tudo, a criança resolve que não come quase nada - ou seja, a ritalina tava mesmo tendo a ver com o que nós suspeitávamos e ligamos pra médica afirmando que estávamos cortando o remédio das nossas vidas. - E a professora teve quase dois meses para avaliar o comportamento dela em aula sem a substância - vejam bem, é tarja preta!


A psicóloga fez uma série de sessões e ontem nos deu o retorno, corroborando o que nós, pais, afirmávamos: ela é normal e muito ativa, mas não é fora do padrao das crianças que mroam em apartamento e acabam ficando muito em casa, sem pátio, indo ás vezes à pracinha, mas precisando gastar mais energia (justo agora que ela saiu da GRD e do Ballet...), mas também tem coisas que seriam bacanas de trabalhar na terapia, pra que se organize melhor e consiga canalizar os sentimentos de melhor forma.


A profe, por sua vez, disse que a Larissa está bem menos ansiosa e que se concentra, a avalaiação trimestral veio cheia de elogios e aponta apenas dois itens que estão em desenvolvimento, podendo melhorar.


Ok, finalmente encontramos alguém não quer nem medicar nem rotular a criança, disse apenas que a Lalá é uma criança normal e tem necessidade de gastar energia. E estamos falados!
Respondendo aos comentários... Sabem que nós lemos várias publicações a respeito de hiperatividade e até nos enquadrávamos em vários aspectos, mas uma coisa era certa: nós temos estímulos ambientais como informações, televisão, Internet, games que são altamente excitantes e não há gasto de energia suficientes para que tenham nem fome direito. Precisamos, adultos e crianças – e muito - de queimar calorias por aí, conviver com outras pessoas, chegar mais perto da natureza e ter tempos com a família que seja de qualidade, não apenas para realizar as tarefas básicas de tomar banho, comer, dormir.
Ser humano e não nos tornarmos máquinas, realizadoras de tarefas. E nem cobrar das crianças que sejam mini adultos, por acharmos que dá menos trabalho. Isso não é de propósito, talvez seja fruto de tantas demandas que temos na vida, sei lá. Da impaciência, do cansaço.
Nós fomos crianças e tínhamos mais segurança e liberdade pra sermos quem somos e não temos conseguido dar o mesmo aos nossos filhos... Talvez aí tenhamos um dos X da questão!

12 pitaco(s):

piscardeolhos disse...

Foto Einstein total, ADORO, ADORO!!!

Patricia Lins disse...

Grande pergunta! Quando uma descoberta é feita, passa-se a ver esse objeto como único. A hiperatividade existe de fato? Uma criança super ativa é perfeitamente considerada hiperativa - no sentido da tal patologia. Mas, os médicos argumentam que existem características a serem consideradas, como, por exemplo, a desconexão com a interatividade, a dificuldade de concentração e outras mais. Meu filho é super ativo e duas psicólogas me disseram que ele tem apenas uma capacidade cognitiva de uma criança com o dobro de sua idade, ou seja, ele tem 03 e sua percepção do mundo equivale a uma criança de 6/7 anos. Eu, acreditava que ele era hiperativo. Mas, foi diagnósticado que ele não apresenta essas características patológicas. Entretanto, ele apronta horrores e entre surtos meus e amores, nunca há um tempo para que eu respire aliviada, porque ele não dá trégua. O mínimo que ele faz é escalar seu guarda-roupa - ou armário - para pegar o que guardo no alto e, depois, não consegue descer e fica me gritando socorro! Cansada pela repetição sem tréguas, o levei a uma neuropediatra, que, nem bem entramo, ela desenrolou um discurso sobre a hiperatividade e, mesmo ele respondendo como uma criança "normal" - detesto essa terminologia, porque todo mundo é normal e anormal ao mesmo tempo... rs - e interagindo com ela, me falava incessantemente, que, "algumas mães aguentam o trampo e não dão remédio", mas, que eu decidiria. E repetia isso, parecendo que queria me induzir ao consumo do medicamento. Eu perguntei o que era aguentar o "trampo", se isso queria dizer que ele era "hiperativo" e se ela não passaria exame para detectar. Ela me disse que criança hiperativa ela conhece quando pisa a soleira do consultório, bate olho e vê logo... Fiquei logo com um pé atrás... como um profissional pode confiar em seus olhos, apenas, diagnosticar e receitar - não, na verdade ela apenas tentou influenciar a minha decisão, mas, eu não cedi... como vou dar remédio para algo que não foi "comprovado"? - sem fazer uma avaliação? Por fim, me recomendou fazer uma avaliação psicológica nele e disse que a orientação da psicóloga seria muito importante. Como duas amigas e psicólogas - que, além de profissionais, conhecem a criança - já haviam me dado suas considerações, desconsiderei a neuropediatra. E fiquei extremamente preocupada com os médicos por aí. Então, agora basta uma criança ser elétrica para ser hiperativa e tasca-lhes remédios? Cabe a nós, mães, pais e afins, estarmos muito atentos ao desenvolvimento do filho. Converso constante e frequentemente com a professora dele, o observo em meio a outras crianças...e, fora a eletricidade - que chamo de "sede de vida" - que ele tem, é inteligente, interativo, observador, companheiro, solidário, pirracento, brincalhão, se concentra e sabe o que está fazendo... enfim, igual as outras crianças. Fora que é prestativo e cuidadoso. Continuo a me cansar com sua eletricidade inesgotável, mas, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Uma criança com TDAH não desenvolve uma linha de raciocínio, esquece o que aprende - entre aspas, porque o que os interessa, e esse é o grande desafio dos pais e/ou responsáveis de uma criança com TDAH, é encontrar aquilo que ele se interessa e desenvolver o resto a partir daí e com apoio, em casos graves, de medicação e acompanhento especializado. Enfim, para tudo o cuidado, despindo-se de tabu, medo... indo em busca de informações e considerando todos os pontos e opiniões e sempre, sempre, mantendo a chama da sua observação acesa. Nós, mães, pais, responsáveis, precisamos observar, mesmo em meio ao tumulto, stress e cansaço diário, como se comportam nosso filhos, seja para detectar algum transtorno - caso haja -, seja para estarmos ao lado daquele futuro adulto. Mas, cuidado, eletricidade não necessariamente é hiperatividade. Hiperatividade, como sinônimo de criança ativa, é uma coisa e TDAH é outra... Beijos, Pat - opinião de mãe.

Patricia Lins disse...

Sobre a foto, Eintein mirim! genial! rs.

gisele.artes disse...

Sabe Ingrid, conversando com outras mães me dei conta de uma coisa... essa nova geração- incluindo os meus- parece q não sabe esperar!!!! Sabe, ficar um pouco parado, entre uma atividade e outra. Estou escrevendo um post sobre isso. Minha mae fala q é pq a gente não leva eles na igreja. Lá, na nossa época, a gente precisava ficar parados literalmente 1 hora!! Hj ninguem simplesmente espera. É uma geração q precia ficar em constante movimento e precisa estar faendo alguma coisa, interagindo e isso deixa as professoras enlouquecidas!!! Pq na minha época a gente terminava um exercício e ficava esperando os demais (tentando conversar baixinho pra não atrapalhar), hj as crianças terminam uma atividade e perguntam e agora profe? E agora Profe? E agora profe? O que fazer pra ocupar estas crianças??? É o dilema de todo mundo, inclusive o meu. As crianças não estão hiperativas, o MUNDO é q está! Elas só seguem o rítmo do mundo!!! bjos, gi

Tati Pastorello disse...

Ingrid... como me pergunto sobre isso!! O meu pimenta vive sendo tachado de hiperativo, mesmo não tendo idade para diagnósticos clínicos e sem dificuldades de aprendizagem. Às vezes fico cabreira, às vezes irritada, às vezes me questiono. Será que o problema está neles, ou em nós, que não toleramos o diferente? Se eles forem tão hiperativos quanto Einstein, que mal haverá nisso?
Beijos. A foto está ótima!!!

Chris Ferreira disse...

Hiperativa ou não? Não sei responder.
Uma coisa não tenho dúvida, é linda!
beijos
Chris
http://inventandocomamamae.blogspot.com/

Marilisa Peeters disse...

Ingrid,
Muitas vezes, lendo tuas postagens, me vejo ali.
Nessa em especial. Minha filha, a Duda, que hoje tem 09 anos, passou exatamente por todas essas fases e experiências que tu descrevestes.
Cheguei a tentar a psicoterapia, mas acabei desistindo tb e dando meu próprio diagnóstico, antes que ela fosse enquadrada com algum problema inventado por eles: Descobri que minha filha tem Temperamento. Todos temos. O dela é mais apimentado que o de outras crianças (o próprio irmão por exemplo), mas ela aprende, brinca, me enlouquece tendo pitis, tem sentimentos nobres, enfim, ela é como qualquer outra criança.
Quando a raiz é forte (a educação que fornecemos) os ventos até balançam as copas das árvores, mas a raiz está bem presa.
Fique tranquila, estás no caminho certo.
bjs

Patrícia Boudakian disse...

E eu dei o cano na blogagem coletiva né? Ai menina, mil desculpas, me perdi e não tinha realmente entendido muito... me desculpa? Eu tbm acho isso, que as crianças precisam gastar energia.. longe de medicações e rotulações. Elas têm de de lidar com seus limites e necessidades e pronto.
beijo-beijo

Patricia Lins disse...

Minha filha, você me inspirou a escrever um post, que foi meu desabafo... De fato as crianças, hoje em dia, vêm com uma inteligência surpreendente e, você fala de uma coisa certa, essa questão do gastar a energia. Em minha época, a gente podia brincar na rua, correr à vontade... com o avanço, vem de um tudo, coisas boas e ruins e isso inclui a preocupação excessiva de não termos tempo para acompanhar nossos filhos na rua e as brincadeiras se restringem a, no máximo, um playground...

Me vi aqui e me senti amparada, ao ver que outras mães pelo Brasil afora, também passam o que passo. Bárbara sua iniciativa! Obrigada! Quando der, visita o "Mães na Prática". Peguei minha resposta aqui e desenvolvi lá.

Beijos, Pat.

Tais Vinha disse...

Caraca, que luta! Fico imaginando o dilema que vcs viveram e ainda vivem. Conviver com uma criança energética demais é difícil. Mas vc tem razão. Houve um tempo em que elas tinham quintal, árvores pra trepar, amigos pra correr junto e chegar em casa exaustas de tanto brincar. Hj além de todo estímulo eletrônico, não há espaço para a infância. Qdo. puder, assista este vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=zDZFcDGpL4U

Bjs

Ana disse...

Olá Ingrid, vim lá do Mãe é tudo igual, e na verdade cheguei lá indicada pela Mãe de duas, que viu meu pedido de ajuda lá no meu blog, ufa!

Estava querendo entrar em contato com mães que não fazem o tratamento medicamentoso mesmo com o diagnóstico.

Meu filho hoje com 8 anos, sempre teve o que a maioria considera normal hoje: inteligência, esperteza, agitação, e muita falta de atenção no que não é interessante à ele. Fui sempre driblando as pressões da escola, tentando aqui e ali, dar tempo para o seu amadurecimento e tb orientando, dando amor e tals.

Só que ano passado a coisa estorou. Com o meu novo casamento e nascimento da irmã, aquela criança que era só arteira, virou o saci! Bom ele começou a psicoterapia indicada para os Tdah, e nós também com muitas orientações.
Decidi trocar de escola. A escola anterior era muito família, lúdica, e o Gabriel queria aterrorizar a tudo e a todos. Coloquei o Gabriel numa escola mais tradicional, com regras claras, e o comportamento mudou completamente. Ele também fez avaliação neuro-psicológica que durou mais de 1 mês. Utilizam jogos, testes de memória, aptidões. Enfim, excluem dislexia, e outras dis, verificam onde tá a lacuna, e fiquei com um dossiê super importante. Realmente a desatenção é muitao intensa. Um conteúdo é apagado de sua memória instantaneamente. Mas não desisto. Pouquissimo tempo de estudo por dia (se tentar mais gera uma tsunami), regras claras, e com tudo isso estamos seguindo. Agora vou tentar além da psicoterapia, a psicopedagogia.

Obrigada, pela troca, sucesso pra vcs!

Ana

Ana Paula disse...

Ingrid, vim lá do grupo do face.
Gostei muito de ler o seu post e os comentários. Sinceramente é a primeira pessoa que vejo avaliar e contestar e seguir em frente sem a medicaçào. Parabéns pela atitude e consciência. Lá se vão dois anos desta postagem e espero que sua filha esteja bem e feliz.
Beijo

http://abrindoclareiras.blogspot.com

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...