Exame de Consciência: Outubro Rosa #blogagemcoletiva

Li no twitter, se não me engano, o convite da @samegui para que participássemos, o máximo de blogueiras, da campanha de conscientização conhecida como Outubro Rosa. 

Tem gente por aí fotografando e postando o Cristo Redentor iluminado, colocando ícones de fitas cor-de-rosa, mas... de onde vem essa idéia? Vem da idéia de "dar uma luz", de dar uma "ligada" nas pessoas. A maioria dos casos de câncer de mama ocorre em mulheres, daí a escolha da cor rosa, desde o início do século XX, para simbolizar a causa.


Imagem: Campanha Outubro Rosa


Mas aí fica a pergunta: se não somos as únicas, precisamos falar sobre prevenção e cuidados para todos os públicos, não apenas o feminino!

Como sabemos, a educação feminina tem sido voltada para a promoção do cuidado, especialmente com o outro. Os filhos, o marido, o lar, os pais e os sogros, mas é preciso saber cuidar de si. E o cuidado consigo mesma é fundamental na hora de descobrir um câncer de mama, pois num toque durante o banho ou numa troca de roupa, que chamamos de auto-exame, pode detectar nódulos ou caroços, que serão então o indício de que algo está diferente no organismo.

Nem todo nódulo é sinônimo de que algo maligno está acontecendo, mas tem muita gente que teme falar na palavra câncer e nega sua existência ou se entrega diante do diagnóstico, perdendo a vontade de viver. Como não estou aqui pra julgar ninguém, quero dizer o seguinte: todo o tipo de câncer detectado logo em sua fase inicial tem grandes chances de cura; comigo foi assim, só que o tipo de câncer era outro. E conheço pessoas que fizeram cirurgia e estão super bem, recuperadas mesmo, após a retirada de nódulos mamários.

Segundo o artigo Condutas na prevenção secundária do câncer de mama e fatores associados, publicado na Revista de Saúde Pública, é possível ver que em torno de 83% das mulheres entrevistadas nesse estudo de caso tinham o hábito de realizar o exame mensal nas mamas, o chamado auto-exame, mas a consciência de que é importante fazê-lo está  muito associada à classe social/nível educacional ou predisposição para a doença.


Imagem: Revista de Saúde Pública, vol. 39, nº3, São Paulo, junho/2005



Mas, já que falei em cuidar do outro, vejo que o papel da mulher é também crucial no ensino dos meninos a se cuidarem. Os meninos, nossos futuros homens, também precisam aprender a se examinar, se apalpar não apenas pensando em questões de virilidade, de fertilidade. Eles também podem ter câncer de mama e muitas vezes por não pensarem no assunto, quando descobrem que têm câncer, já estão com a doença distribuída por vários órgãos, o que e chamado de metástase.

Outubro é o mês em que ficou "combinado" de ao redor do mundo se falar mais sobre o câncer de mama, mas ao longo do ano todo é tempo de se observar.


Imgem: www.themedemo.indonez.com


Hoje em dia é garantido por lei que as mulheres façam pelo sistema único de saúde a mamografia anual, mas os médicos solicitam para mulheres mais jovens ultrassonografias e mesmo mamografias antes dos 40 anos, para que se tenha um padrão de como é o corpo antes de começarem a baixar os níveis de estrogênio e mesmo antes de amamentar.

Para nós, mulheres, as mamas simbolizam feminilidade, prazer, amor que é dado aos filhos por meio da amamentação, enfim... vale a pena ter cuidado com algo que representa tanto para a gente! E para os homens, com certeza, façam um exame de consciência: é justo pensar que melhor é prevenir do que remediar, não é mesmo?






  



Pra quem reclama não apenas do preço

Muita gente reclama (com razão) que suas cidades não fazem parte do chamado circuito cultural, que não há muitas opções e fica indignada porque peças conhecidas de teatro ou shows de cantores nacionalmente ou até de fora do país não chegam até sua região. Eu era uma delas.

Depois de um tempo, não dá mais pra reclamar tanto assim de Porto Alegre. O povo começou a fazer acontecer e os artistas gaúchos se mexeram pra que não valorizássemos apenas artistas famosos pela TV ou por terem grandes gravadoras e produtoras trazendo seus shows. Passamos a ter um festival chamado Porto Alegre em Cena, para criar um público de teatro, com peças excelentes por preços convidativos. Temos muita produção que o país desconhece, inclusive. - Aliás, nosso estado tem sido privilegiado por trazer de outras regiões uma excelente programação, mas os preços estão absurdos e ainda temos muito pra aprender em termos de oferecimento de um show deste gabarito que desejamos assistir!

São problemas de circulação nas áreas onde ocorrem shows, falta de estacionamentos ou de locais para fugir de entrada e saída dos shows para quem não tem nada a ver com isso. Muitas vezes os locais onde os shows são realizados não estão preparados para mudanças climáticas ou se localizam em vias de acesso complicado/estreito...  - Quero ver em tempos de Copa do Mundo!

Imagem: @paulodedalus
No dia 06/10, por exemplo, fomos @paulodedalus, meu irmão e eu ao show do Eric Clapton e ele foi sensacional! Mas é impressionante que uma cidade simplesmente pare quando um evento como esse acontece. E, nessa semana, vários shows estavam acontecendo, de artistas muito famosos. E continuavam as apresentações de artistas locais também.  

Nesse show especificamente, observei que havia, sim, banheiros químicos para deficientes físicos. Como muita gente sabe, eu andei precisando ficar de molho de novo, dessa vez tendo torcido o outro pé. E estava usando uma cadeira de rodas para me locomover. Não sei como ainda me surpreendo quando vejo que uma pessoa precisa ficar indo atrás de alguém para abrir portões ou afastar barreiras para que seja possível tentar entrar no banheiro químico. Mais ainda: que seja possível se movimentar lá dentro. Uma pessoa que não consiga se levantar da cadeira de rodas, sinceramente, não consegue usar esse sanitário...

[Aí já fica uma dica: hoje à tarde descobri por acaso um evento que deveria ter sido muito divulgado: hoje, dia 20/10/2011, a Faculdade de Serviço Social da PUCRS em parceria com a FADERS, promove o Seminário de Pesquisa Direitos Humanos e Condições de Acessibilidade no RS, em que serão apresentados três estudos, entre eles Condições de Acesso das Pessoas com Deficiência aos bens sociais no Estado do RS, que investigou o acesso à educação, saúde, assistência social, trabalho, cultura e mobilidade urbana das pessoas com necessidades especiais nos 496 municípios gaúchos. O evento ocorre no auditório térreo do prédio 50, das 9hs às 17hs.]

Imagem: http://www.whitegadget.com
Mais ainda: com preços que não andam convidativos, muita gente tem justificativa para não prestigiar os espetáculos. Mas ainda assim eu fico pensando que prefiro pagar por uma peça, que envolve muitos profissionais e que geralmente não contam com patrocínios (ou são discretos), que ir ao cinema para ver filmes americanos, que envolvem, claro, uma leva de gente trabalhando, mas que conta com orçamentos bilionários dos estúdios de Hollywood. Os nacionais tenho feito questão de prestigiar! - Sou suspeita, fiz teatro por vários anos, mas o teatro tem um encanto único!   

Mas há também a programação dita alternativa e que nem sempre é divulgada. Gratuita ou com preços simbólicos, ela tem oferecido oportunidades boas de conhecer coisas fora do "circuito" e dá uma arejada nas idéias, saindo do senso comum. Vamos aos exemplos:

Universidades sempre têm programação como Sobremesa Musical, palestras, ciclos de debates, workshops, seminários, semanas acadêmicas, feiras de iniciação científica e até retiros! Isso nós raramente veremos na agenda cultural de um portal de internet ou ocupa um espaço minúsculo em revista semanal ou jornal, porque não gera patrocínio, mas vale a pena procurar.

Imagem: http://artesanatodebambu.blogspot.com
Estudantes, idosos, professores e classe artística costumam ter descontos em ingressos. Portanto, esteja com seu comprovante sempre na carteira! 

Aqui em POA, além da proximidade da 57ª Feira do Livro, estamos com a Bienal de Artes Plásticas do Mercosul a pleno vapor. E temos mostras especiais sobre direitos humanos, cinema espanhol, estréias de curtas gaúchos... Existe ainda a possibilidade de transporte gratuito até alguns dos locais.


Colabore com sua cidade prestigiando a programação cultural que ela oferece. É preciso criar uma cultura de participar da cena cultural (redundância)! Porque se os artistas precisam ir onde o povo está, como diz a canção, os artistas também se alimentam do aplauso e os patrocinadores investem em espetáculos e shows que dão retorno, assim como prefeituras subsidiam o que tem mais audiência e, então, vira um ciclo vicioso. Foi o que aconteceu com o Festival de Inverno, em que assistimos o show do Arnaldo Antunes por um preço módico e com qualidade incrível, num dos melhores locais da cidade!


No mais, acho que é isso: quem conhece toma gosto por estar em contato com a cultura. Seja uma feira de artesanato, uma exposição famosa, tomar contato com outras formas de ver o mundo faz a gente querer sempre mais!  






Resultado do Sorteio e Pesquisa!

Gente amiga, aqui estou para dar satisfação sobre o sorteio prometido para hoje. O livro "Não Deixe o Sol Brilhar em Mim", de Evan Raiz Ribeiro vale a pena, meeeesmo! Estou adorando (não sei se vocês lembram, mas ganhei no sorteio que o Alexandre, do blog Lost in Japan, fez)! Vale a pena dizer que nas melhores livrarias é possível encontrá-lo, já que nesse sorteio vai ser contemplado/a apenas 1 seguidora com o exemplar. 

Abaixo seguem as pessoas inscritas:

  1. Luana Ugalde
  2. Gisele Barcellos
  3. Chris ferreira
  4. Maria Elisia Flores
  5. Sergio albuquerque
  6. Angi Simon (comentário)
  7. Angi Simon (twitter)
  8. Rebeca Bricio
  9. Vanice Santana
  10. Fernanda Iasi
  11. Josiana leite
  12. Silvia Azevedo
  13. Luci cardinelli
  14. Silvana Anhaia
  15. Daniele Brito
  16. Tuka Siqueira (comentário)
  17. Mari Hart
  18. Tuka Siqueira (blog)
  19. Tuka Siqueira (twitter)
  20. Tuka Siqueira (FB)
  21. Tuka Siqueira (FB)
  22. Lua Nova
  23. Geovana Centeno
  24. Ana Artigas
  25. Marion
O sorteio foi realizado pelo Random.org e aqui está o resultado:




Parabéns, Angi!!! Entra em contato em até 48hs enviando contatos e endereço para o envio por correspondência, ou seja, até as 23hs de segunda-feira, dia 17, ou vou fazer novo sorteio, Ok?!

Ah, mais uma coisa importante: peço um bocadinho de sua paciência, pessoas, e também sua colaboração: fiz uma pequena pesquisa para conhecer melhor quem costuma visitar e seguir o Desconstruindo a Mãe. Demora 1 minutinho no máximo para responder! Basta clicar em FALE DE VOCÊ, que aparece na barra lateral esquerda!

Obrigada pela participação e o carinho de sempre, lembrando que o movimento #comentemais continua firme e forte, para todos os blogs!!!

Beijo,
Ingrid


Como me tornei professora? #blogagemcoletiva: Esmaltes e Educação

Esmaltes: bata rosa + rosa sucesso + paz e amor
Hoje é véspera de uma data muito importante pra nós aqui de casa. Mas para uma grande maioria das pessoas vai "passar batido". O dia do professor, pra gente, é um dia de orgulho. Afinal, somos dois professores de ciências e biologia, @paulodedalus e eu. Inclusive nos conhecemos nos bancos do antigo Instituto de Biociências da UFRGS, nas aulas de matemática aplicada a biologia.







Ei-los!

Quando perguntam sobre como me tornei professora, a frase sai imediatamente da boca, antes mesmo que reflita a respeito: - Sendo aluna. Fui aluna de muitos professores, tendo começado muito cedo, pois pedi para ir para a escola acompanhar os amigos maiores. 

Tive professores maravilhosos e outros nem tanto, mas com todos eles aprendi sobre o que é ser educador, numa época em que caderno de caligrafia, giz e quadro-negro contavam com o suporte das cartilhas e alguns outros materiais que continuam em uso na educação dos meus filhos. E posso dizer, com certeza, que ter sido aluna de gente muito afim do que fazia... fez toda a diferença em minha vida.




Imagem: www.oceanleadership.org



Eram professores sorridentes, motivados, me pareciam felizes por estar naquele lugar cheio de pessoas de origens, crenças e disposições diferentes para estudar. Muitas vezes a maioria não estava interessada em estar lá e era preciso ter jogo de cintura para que, percebendo o astral da turma, algo fosse modifcado nos planejamentos, ou acrescentado, ao mesmo tempo em que a cobrança da escola de freiras fosse do tipo marcação cerrada.

Uma das minhas primeiras professoras foi a tia Lúcia. O relacionamento dela com as famílias dos alunos sempre foi um destaque na minha pré-escola. E isso foi forte a ponto de ainda hoje nós continuarmos em contato! A filha dela é uma das minhas amigas mais queridas e durante a nossa adolescência muito freqüentei a casa dela. - Fiquei tentada a pegar uma foto dela no facebook, mas sem pedir autorização não dá...

Mas talvez eu, como vários outros alunos dessa escola, tenha sido privilegiada por continuar convivendo com meus professores até hoje, pelo bairro em que moramos. Encontro meus ex-professores no supermercado, nas ruas e o que acho bacana é que eles se lembram de mim, do meu irmão, contam histórias que dizem que, sim, os alunos são importantes pra eles também. Aí o professor de química dá um abraço, a do jardim já o reconhece e se forma uma rodinha de conversa...


E quando encontro a professora de física na escola da filhota e ficamos de altos papos? Imagino que ela agora dispõe de laboratório de física, coisa que nós não tínhamos... Talvez essa seja uma disciplina então bem mais atraente agora. - Detestava!!!




Imagem: www.edgartownschool.org



Lembro quando eu morava em São Paulo e uma turma de ex-alunas e atuais também se formou para comemorar o 50º aniversário do nosso professor de educação física. Nos comunicamos pela internet e foram feitas homenagens, bolo, powerpoint com fotos dos tempos em que fomos suas "pupilas" na escolinha de basquete e eu vim para POA para participar desse encontro. A emoção do professor Raul foi tanta que ele riu entre lágrimas e abraçou cada uma de nós com muita emoção! - Não sei se ele tinha noção do quanto é amado!

As professoras de português estimularam muito o gosto pela escrita, por conhecer a história que havia por trás de cada autor que líamos e que usássemos a criatividade em nossas composições. Elas foram as primeiras a trabalhar conosco no pátio, ou em posicionamentos diferentes dos tradicionais postos de mesas e cadeiras enfileiradas, nos mostrando que era possível, sim, olhar diferente para aquele lugar e aquelas pessoas com quem crescíamos.


Uma experiência interessante que tive foi ver a minha professora da primeira série voltar a ser minha professora na oitava... Foi um exercício de quebra de paradigma. Na minha memória ela era a professora idealizada, uma verdadeira fada, a que me acolheu numa escola que considerava enorme e que me incentivou muito quando eu já sabia ler, a ser uma "monitora" dos coleguinhas que ainda mal conheciam as letras - na época não era obrigatória a pré-escola. E, depois, quando eu já era adolescente, ela se mostrou uma tremenda companheira e incentivadora da galera, a então "sôra" Dirlei.


Essa imagem é da entrada da biblioteca da 
faculdade de Educação da UFRGS, onde estudei.
Tenho sempre em mente o quanto vale a pena a dedicação ao trabalho em educação quando me dedico a ele. Mas não é por isso que acho que professores são missionários e basta a satisfação de trabalhar com o que gostam para se darem por satisfeitos. Continuo acreditando que assim como outros profissionais, merecem respeito e reconhecimento por seu trabalho com condições salariais, ambiente de trabalho, investimento em atualização e incentivo para que vivam motivados a continuar dando seu melhor.





FACED - voltei lá depois de 10 anos
um dia desses


E é por isso que me juntei a um projeto que coloca em prática tudo isso a que acabo de me referir. Se quiserem conhecer um pouco sobre ele, basta clicar aqui.  


Poderia me dedicar dias ao tema e este certamente não será meu melhor post, porque desde ontem me sinto correndo atrás do rabo para dizer o quanto sou grata aos verdadeiros mestres que tive e desejo continuar tendo ao longo da vida. Porque com eles aprendi que vale a pena continuar uma eterna curiosa, aprendiz da vida.


Por isso, aqui deixo pra vocês o que gostaria de fazer pessoalmente, hoje e sempre:


Imagem: www.zazzle.com.br

Estava esquecendo: este post faz parte da blogagem coletiva Esmaltes + Educação, proposto pela Fernanda Reali. 

Como era Ser Criança na Minha Infância? #blogagem coletiva

Selinho da blogagem!
Puxa, nunca pensei que uma blogagem coletiva proposta tão espontaneamente fosse tomar essa proporção: um momento em que todos na casa dormiam e eu me peguei a olhar uma caixa cheia de imagens que estão misturadas... Porque algumas estão desorganizadas, outras já naqueles álbuns que recebemos na revelação, mas que traziam consigo milhões de significados.   

Tinha fotos aos montes, principalmente dos nossos filhos, do início do casamento, de pessoas que já partiram... Eu, canceriana (=saudosista por natureza), me vi emocionada e rapidamente soluçando. Sim, porque eu lembrei de muitas coisas lindas, que valeram a pena ser vividas!

Apaixonada por animais
Tinha meu avô fumando cachimbo e eu fazendo zona ao lado dele, que tentava ler alguma coisa embaixo da parreira da casa dele; o balanço feito com corda do armazém desse mesmo vovô; o bezerrinho que a vovó deixou que eu cuidasse; as brincadeiras com meu irmão no jardim que ela cultivou com tanto amor e era o seu orgulho! Adorávamos brincar de labirinto entre as rosas, as cravinas e depois fugíamos pra horta, ao lado, onde estavam as couves, os alfaces e muito mais que acabava virando nossa refeição e que aprendemos a saborear com gosto.

Jardim da vovó


Férias em São Lourenço do Sul significava ficar ROSADA. Nós ficávamos na casa desses avós com hábitos rígidos da sua cultura alemã, como jantar às 18hs, então aproveitar a praia, chamada Pérola da Lagoa - recomendo, é linda mesmo! - significava reunir os primos, que iam de Porto Alegre, com os de lá. E eu amava brincar com minhas primas! Mas significava também pegar o sol no momento mais perigoso e ficar de bode porque na hora mais bacana era o momento de ir jantar e não tinha negociação. Nunca entendi o motivo, mas foi assim.   

Chegando da praia: banho de regador

Não havia a cultura do filtro solar e me lembro da minha mãe usar nela, uma pessoa que se bronzeia até com suspiro, coca-cola e óleo bronzeador (odeio o cheiro até hoje) pra ficar pretinha e cheia de abelhas por perto. E eu, invariavelmente, embaixo das figueiras, mas conseguia ter insolações memoráveis. Calamina deu muito lucro comigo.

Mas nós tínhamos também um mundo a explorar que era maravilhoso. A casa do vovô Albino e da vovó Ilma era grande e tinha um armazém onde se encontrava de tudo: tecidos, linhas e aviamentos; lembrancinhas de batismo (oi?!); enxadas, sementes, ancinhos e regadores; pinga, vermute e conhaque; vegetais da horta, ovos colhidos no fundo de casa; manteiga que nem ia pra geladeira (ECAAA eu já dizia quando criança); penico de louça; remédios que ficavam ao nosso alcance e nós pegávamos NAFTALINA, ASPIRINA INFANTIL e AAS pra comparar o sabor com BALAS DE BANANA, PIRULITOS E BALAS SOFT; ki-suco e guaraná frisante Polar, guaraná Sielva, guaraná em pó... Também tinha toicinho, salame, queijo e mortadela "armazenados" em uma invenção do meu avô que não tenho como descrever agora, porque faltam as palavras (tô chorando de novo) e imagens pra ilustrar, mas volta e meia cercada por moscas.  - Sentiram que sou uma entre muitos sobreviventes?

Dindo Guto, dessa vez atrás da mesa
Mas também tive uma infância cheia de outras coisas, como brincar no quarteirão do condomínio onde meus pais vivem até hoje, numa época em que não havia cercas; a turma era grande, parece que o relógio biológico da mulherada estava sincronizado e todas resolveram parir os primeiros e segundos filhos juntas. Foi lá que conheci o meu cumpadre, o Dindo Guto. O meu amigo/irmão, que eu enfiava debaixo da mesa da sala e vivia com hematomas na testa porque eu adorava empurrar o carrinho de bebê dele, me aproveitando de ser 6 meses mais velha que ele. Essa amizade estava escrita, já que nossos pais são amigos de infância, vieram morar em POA e dividir apartamento, compraram juntos apartamento quando iam casar, na mesma época...


Casamento coletivo
Com essa turma vivi grandes alegrias e a minha mãe, antenada que só, tinha umas idéias malucas pra época, como nos fotografar lá da janela do apartamento enquanto ficava de olho passando roupa, pra termos recordações. E encontrei uma foto de um dia em que brincávamos de casamento - e eu achando que  a filha era precoce! - Tinha todo o cenário armado, com cobertores pra sentarmos na grama, as bicicletas para sairmos da cerimônia, as meninas mais velhas enfeitando os cachos da minha amiga Biba com jasmins, enquanto nos meus nada parava, porque eram muito lisos!

Folia organizada


Outra invenção da dona Ciça foi a sacola com cordinha pra enviar o lanche pela janela do 4º andar pra que eu nem entrasse imunda no edifício, o que pra ela era um pecado - hoje entendo! - ainda mais que eu adorava me pintar de barro pra ficar pretinha como minha Dinda Janine e minhas primas de Dom Pedrito e do Rio de Janeiro.

Fora que todos os animais machucados iam parar lá em casa, tivemos marrecos dentro do apartamento e dávamos banho com água morna, pra depois secá-los com secador. Tivemos passarinhos em gaiola que não conseguimos ficar por muito tempo, de dó que eles ficassem tristes com a prisão que significava estar conosco. Hãmster, cachorros que foram parar lá em casa no meio de uma reunião dançante em uma sala de 10m² e ficaram menos de 15 minutos porque fizeram xixi e acabaram com a festa... enfim...

Nós tivemos oportunidade de dividir espaços, brinquedos (não ganhávamos muito nem a oferta era tanta quanto hoje) e o primeiro a ter videogame no condomínio foi o meu primo Xande, eu acho. Então ele organizava campeonatos de ATARI com caderneta pra conferir na tabela o andamento do concurso.

Tínhamos atritos e nhenhenhés como as meninas e meninos de hoje; tínhamos ciúmes e também vontades, mas nossas frustrações não iam longe, porque a galera se resolvia e muitos dos perrengues nem chegavam aos pais. Talvez nossas mães dessem mais espaço pra vivermos esses sentimentos, sem tentar psicologizar tudo, sei lá.

Os corredores dos prédios (são 3) eram cenários de muitas aventuras, como ter coragem de tocar a campainha do apartamento de uma senhora que até hoje me dá arrepios, porque quando se mudou pro bloco era viúva recente e vivia de preto... Logo sendo associada a uma bruxa. Nós quase rolávamos do 6º andar até o térreo embolados, porque o medo de ela nos pegar era imenso, mas a curiosidade por ver o caldeirão era igual!

Sentiram de quem eu sou fã?
Tive chá de encontro das bonecas (pena não ter escaneado!), joguei taco (foi assim a primeira vez que torci o pé, de muitas), subi em árvores e nunca consegui descer, porque morro de medo de altura. Tive reuniões dançantes, dança da vassoura e aprendi a jogar cartas com a minha amiga Nanda, que junto com a Jana me levavam pra escola aos 5 anos, cuidando como irmãs mais velhas. A escola onde fiz a pré-escola era pública, ficava a 2 quarteirões e nós sentíamos segurança de andar pelo bairro.

Nossas mães nos levavam de ônibus (de galera) pra fazer piquenique em parques do outro lado da cidade e aos primeiros dias de passe livre, coisas bem doidas, porque toda a população portoalegrense tinha a mesma idéia no mesmo dia; tínhamos um verdadeiro Barney, o Remendão, como herói, que morava no sétimo andar e fomos ao seu programa. Tive exemplos péssimos de comportamento nos desenhos que amava assistir como Tom & Jerry, Pica-Pau, Pantera Cor-de-Rosa e Pernalonga. E acho que sei dizer as falas de tantas vezes que assisti. E até hoje eles são repetidos! 
Meu bonecão nasceu em 1978





Mas talvez a melhor brincadeira de todas tenha sido me tornar a irmã mais velha. Achei que o nascimento do Max, que eu havia torcido muito pra que viesse uma Grace, não mudou a alegria com que vi a chegada de um bebê. Ele era o meu bonecão, lindo, com quem adorei dividir espaço, atenção e a vida. É o meu maior amigo, de todas as horas e com quem compartilho muito mais que o gosto musical. Nós temos uma infância bem vivida, adolescência idem. E a vida adulta nos uniu ainda mais. 

Essas pessoas continuam amigas!
Nesse sentido, sou saudosista: tive mais liberdade do que nossos filhos têm, mas ao mesmo tempo cresci vendo o mundo se desenvolver, progredir em várias coisas, então na mesma medida acredito que também não fiquei ancorada lá atrás. Talvez o que tenha acontecido seja que eu me sinta inspirada pela infância que tive pra tentar proporcionar um bocado de coisas aos meus filhos. A principal delas, brincar em espaços abertos ou em casa, porque acredito que "o brincar é necessário para a vida humana" (Tomás de Aquino).




Talvez por isso a criança que vive dentro de mim esteja chorando de alegria por ter esse baú de memórias, mas por não ter se perdido no meio do caminho e continuar me inspirando. E sorria pra você, que participou dessa blogagem, contando suas memórias para um montão de gente e que espero que volte aqui sempre que desejar, porque também aprendi na infância que é muito bom fazer novos amigos. 


Primos: amigos para sempre

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